Tratar Presos com mais rigor?

segunda-feira, 28 de maio de 2012

RONDONIA NA LAMA


RONDÔNIA NA LAMA

*Fátima  Brito



           O Brasil está atolado na lama fedorenta da corrupção, a cada dia que passa nos dá a sensação que só existem dois caminhos para nosso país: O Brasil acaba com a corrupção ou a corrupção acabará com ele.

 Nos quatros cantos do país, de Brasília ao município mais humilde escondido em meio à floresta amazônica, nossos políticos fazem a festa com o dinheiro público e já não se tem mais lugar pra guardar tanto dinheiro. São caixas de sapatos, meias e cuecas e abertamente em associações e fundações fantasmagóricas e fraudulentas para tirar dinheiro a “rodo” dos cofres governamentais e aumentar a cada dia a desigualdade social.

Li em uma coluna de um jornal eletrônico que o autor dizia ter saudades da ditadura militar, e afirmo a este caro colega  que também tenho saudades! Bons tempos aquele, eu era feliz e não sabia!

Sinto muito pelas mães que perderam seus filhos, sinto também pelos filhos que perderam seus pais por uma grande luta em busca da tão sonhada liberdade e perderam suas vidas nos porões do antigo regime, através de torturas. Pelo menos a Ditadura Militar tinha nome, cara e cor.

Nome: Exercito Brasileiro

Cara: Homens uniformizados

Cor: Verde

Só que a ditadura militar não importunava aqueles que viviam suas vidas e não se envolvidas em política, não matava criancinhas, velhinhos e jovens. Eu mesma nunca fui importunada pelos militares, trabalhava muito, só vivia pra meus filhos e para melhorar nossa situação financeira quando precisava ir ou levar meus filhos ao médico, sempre tinha atendimento nunca voltava desolada.

Isso é para refletir: você acreditava mesmo que vivemos uma democracia¿ não! Hoje a nossa ditadura não tem cara, nem cor e nome. Mas, ela existe! Os porões da tortura são os hospitais públicos também carinhosamente chamados de “corredores da morte”. Seu crime: ficar doente e não ter dinheiro para pagar hospital particular ou não ter plano de saúde! Método de Tortura: ser jogado no chão, não ter médico pra atender, nem ter remédios e ficar por dias a frio nos corredores fétidos dos hospitais imundos e que não respeita ninguém independente de cor ou idade e os soldados são funcionários, mal remunerados, estressados, exaustos e que na hora de reivindicar os seus direitos são espancados.

A ditadura militar acabou só que vivemos uma ditadura sem cara, cor ou nome, mas está ai. Ela não tem porões... Os métodos são mais sofisticados, se você denunciar qualquer falcatrua leva um tiro na cara de um motoqueiro qualquer, a pena é de morte ou sofre um festival de desmoralização pública, tiram todos os adjetivos de qualquer marginal e colocam em você.

Hoje não tem ninguém sendo espancado nos porões da ditadura “sem cara” porque não tem ninguém denunciando, até porque se denunciar os corruptos, os ladrões saem rindo da cara do povo. Há poucos dias vi professores sendo espancados levando tiro de borracha, a policia espancou os mesmos com cassetetes e chutes diante de câmeras de repórteres!  Crime: está reivindicando melhores salários e condições de trabalho, como segurança, para não ser morto por alunos mal intencionados, isso aconteceu no Ceará, mas acontece em qualquer lugar deste país e principalmente com a classe trabalhadora.
Isso é ditadura! Só mudou de mãos. A ditadura militar pelo menos torturava nos porões, nos fundos de uma casa qualquer, não faziam diante dos filhos e netos para que não vissem e os familiares passarem o desespero de ver seus entes queridos serem torturados.

Essa ditadura espanca trabalhadores nas ruas e também quem fere seus interesses. Fui eleita vereadora nesta capital (Porto Velho), e resolvi que faria um trabalho respeitando o fim para o qual fui eleita. De inicio fui convidada a uma reunião com a direção do Partido no qual era filiada e ouvir que teria que ler e rezar na cartilha do então presidente do partido, ainda  tinha que votar favorável em tudo que fosse de interesse do presidente e nos benefícios “pessoais” da prefeitura!

Fui contra, pois era contra meus princípios. Jamais viraria um “fantoche”.

Paguei muito caro por isso, fui pega pela ditadura sem cara, não para os porões, mas para o xadrez  de uma delegacia pois prenderam meu marido, torturaram de todas as formas: com choques nas partes intimas, afogamento, espancamento e asfixia mento e ainda o acusavam de receptação de objetos roubados. Torturaram presos para acusá-lo de ser receptador, ficou quase morto de tanta tortura que ficou um mês internado em um hospital particular para se recuperar, depois mais três meses na penitenciaria com bandidos de alta periculosidade.

O pior de tudo, que ainda fizeram-no acreditar que eu havia mandado fazer tudo aquilo que ele sofreu, para quando saísse da cadeia com muito ódio de mim, me matasse e a vaga na câmara municipal estaria livre e seria assumida pelo suplente e este jamais teria coragem de ir contra, pois teria o exemplo do que acontece com quem fere os interesses.

Hoje meu ex-marido tem ódio mortal de mim, pois acredita mesmo que fui eu que mandei torturá-lo, como muitas pessoas que se lembram do fato também acreditam. Sai da vida pública com fama  de mulher “cruel” que manda torturar o marido.

Isto é a “democracia”!!!

Logo em seguida descobrir um desvio de recursos para obras de infra-estrutura através de convênio com o Governo Federal para 11 obras. Criei CPI e chegamos ao final comprovando todas as irregularidades denunciadas e outras. Mais uma vez sentir o peso dessa ditadura sem nome e sem cor.

E o que sofri de menos foi o Prefeito dizer nos noticiários locais que eu batia na minha mãe, para chocar as pessoas e me desmoralizar publicamente. Depois de fuçar a minha vida e não encontrando nada quer desabonasse minha conduta como parlamentar a bendita CPI foi arquivada e jogada no esquecimento, uma prova de que em nosso Estado a corrupção sempre esteve alicerçada num corporativismo sujo e podre, e o que vemos nas ultimas  semanas é um chute na moralidade. A cassação de Valter Araujo nos deixa com uma sensação de “trouxas” a sociedade esperava mais, queríamos todos cassados e afastados de seus cargos por desrespeito aos bons costumes.

No entanto, parece que nada mudou nos últimos 20 anos em nossa política, desde que denunciei o prefeito daquela gestão até hoje, o dinheiro público que deveria ser investido na melhoria de vida da população rondoniense, mais saúde, mais educação, mais segurança e mais infra-estrutura é dividido por “quadrilhas” que de quatro em quatro anos enganam o povo com promessas e promessas e nada acontece de mudança estrutural em nossa cidade.



* Ex-vereadora em Porto Velho, é ativista em movimentos no combate à corrupção.