quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A fenomenal EFMM




A Estrada de Ferro Madeira Mamoré, localizada no interior da Floresta Amazônica, é uma das menos conhecidas e mais faladas ferrovias nacionais e quem sabe do mundo, pois ainda hoje são grandes a mística, as lendas e as histórias que cercam sua idealização, construção e operação nos confins do Brasil, por um punhado de homens corajosos e decididos, que levaram o progresso a uma região até então virtualmente inexplorada e selvagem, pagando para isso um preço altíssimo em termos de vidas humanas perdidas, reputações criadas e destruídas, perdas materiais e muitos atos de de heroísmo e lições de dedicação, etc...
Delírios ufanistas, razões de ordens estratégicas e econômicas, sonhos da descoberta de um "Eldorado" na região, muitas foram as motivações que levaram milhares de pessoas a entregarem suas vidas e sua saúde nesse empreendimento, bem como foram muitas as empresas Brasileiras, Americanas e Inglesas que, visualizando um futuro de enormes riquezas na região, acabaram afundando-se em dívidas e falindo fragorosamente, apesar das imensas somas de recursos nacionais e estrangeiros, particulares (privados) e governamentais injetados na costrução dessa estrada de ferro, tudo isso contribuindo para cunhar para a estrada expressões do tipo "Ferrovia Amaldiçoada", "A estrada dos trilhos de ouro", "A estrada onde morreu uma pessoa para cada dormente colocado" e a que define realmente o que foi a construção da ferrovia, no nosso entender, quando a ela refere-se o jornalista Manoel Rodrigues Ferreira como "A Ferrovia do Diabo".
Nesse espaço tentaremos contar um pouco do que foi essa epopéia, esclarecendo, por oportuno, que a maior parte das informações advém da leitura de alguns livros, entre os quais o excelente "A FERROVIA DO DIABO", de Manoel Rodrigues Ferreira, que a meu ver é o trabalho definitivo sobre essa ferrovia e deveria ser literatura obrigatória em todas as escolas do Brasil, pois o autor consegue, de uma forma envolvente, apresentar clara e objetivamente desde os primórdios da colonização da região até os motivos que levaram diversas companhias a tentar a construção da ferrovia, assim como os aspectos políticos que cercaram sua construção, as lutas de poder nos seus bastidores e a verdadeira história de seus construtores. Apresenta ainda, em uma linguagem bastante clara, os cenários onde o Brasil e os Estados Unidos se encontravam no início desse século e os rumos e do desenvolvimento de ambos. Em sua última parte, o grande jornalista conta como esse verdadeiro patrimônio nacional foi vendido a preço de sucata para ferros-velhos paulistas, em mais uma demonstração do descaso com que os poderes constituídos tratam a "coisa" pública e o patrimônio histórico do País.




II. Os Índios na região

Por ser uma das últimas regiões a serem exploradas no Brasil, ainda existiam muitas tribos de índios na região atingida pela construção da ferrovia, principalmente junto às cachoeiras do Rio Madeira, sendo algumas até consideradas canibais pelos viajantes, entre as quais as dos Pacaás-Nova, tribo que empresta seu nome a uma serra localizada na região, sendo porém mais conhecida a dos Caripunas, citada também como Cajaripunas nos primeiros relatos sobre a região.
Ao longo dos anos de exploração e construção da ferrovia, vários contatos mais ou menos "felizes" foram feitos com diversas tribos locais, sendo que um dos relatos, feito em 1887 pelo engº Pinkas, que esteve no Rio Madeira entre 1883 e 1884 para fazer o projeto da estrada de ferro, é assim transcrito por Manoel Rodrigues Ferreira, em seu livro "A Ferrovia do Diabo":
"É uma tribo pacífica que gosta de ser brindada pelos viajantes a cujo encontro eles vêm, voluntariamente. Obedecem a um capitão (cacique), vivem em pequenos grupos entregues à caça e à pesca, plantam em vários pontos dos seus domínios, que anualmente percorrem, bananas e mandioca, sabem fazer uma farinha grosseira e conservar carne e peixe e produzem da farinha uma bebida fermentada (chicha) com que se embriagam em suas festas. Gostam do sal e pedem camisas e calças que só aceitam quando novas e nunca mais despem até cair aos pedaços. Os Caripunas, na maioria, andam completamente nus. Furam o septo do nariz, que recebe um duplo buquê de penas encarnadas e ornam as orelhas com dentes de capivara ou de jacaré, grudando-os com cêra. Vistos de longe parecem ter bigode vermelho.
No pescoço, trazem colares de dentes de macaco ou coati, nos pulsos e pernas enrolam em forma de pulseiras um barbante engenhosamente coberto por talas de penas. Nos seus festejos ornam-se com uma coroa de penas de tucano e mais enfeites de penas pretas, amarelas e vermelhas no corpo. As mulheres usam dos mesmos enfeites, andam completamente nuas até a idade da puberdade, quando recebem a tanga, pedaço de pano de 15 centímetros em quadrado ornado de penas e suspenso livremente sôbre um cinturão de feitio igual às pulseiras. Homens e mulheres não têm vestígios de cabelos no corpo. Os cabelos pretos lhes caem incultos sôbre os ombros e o peito, apenas aparados na fronte com a faca de conchas. Sabem fiar e fabricam rêdes de fibras vegetais. Seus arcos são direitos, têm dois metros de comprimento e são fabricados do pau da paxiúba. As flechas são maiores ainda. A haste que cortam da cana brava é enfeitada por penas de asas de mutum amarradas em espiral na parte inferior e unida à ponta de uma taboca mais grossa por um fio de algodão coberto com cêra. Essa arma, lhes serve na pesca, na caça, e na guerra. Usam também da zarabatana e conhecem os estricnos (venenos). Falam a língua geral (tupi), fortemente viciada pelo idioma dos seus vizinhos do Madre de Dios e Beni, e alguns entre êles conhecem a significação de algumas palavras espanholas.
Perguntam aos viajantes que encontram seus nomes e aplicam-nos em si ou seus filhos. Sofrem muito de constipações (gripes), de varíola e de febres intermitentes (malária). Parece ser costume entre esses índios abandonarem seus doentes ao acaso, sob pretexto de se acharem debaixo da dominação de algum espírito mau, que se apodera também daqueles que dos doentes se aproximam. Numa das minhas viagens às cachoeiras encontrei na margem esquerda do rio uma índia que ao nos aproximarmos mostrou ter uma ferida enorme no joelho da perna direita e achava-se incapaz de andar. Essa índia foi abandonada por seus companheiros os Pacaguaras, que se contentaram em armar junto dela uma rêde e deixar-lhe uma cestinha com bananas. Ainda em outros lugares, a comissão que dirigi teve encontros amistosos com índios e a segunda turma sentiu-se acompanhada e espiada por eles durante todo o tempo que esteve no mato. Entretanto, nunca se mostraram, nem molestaram os homens dessa turma, apesar de irem isolados buscar água."



III. Os construtores da EFMM fazem amizade com os índios
Os Caripunas localizavam-se na região do Rio Mutum-Paraná, onde êste desemboca no Madeira, à altura da Cachoeira dos Três Irmãos. Com a retomada efetiva do iníco da construção da ferrovia, segundo alguns relatos, suas investidas contra as obras da ferrovia também foram retomados. Durante a noite, os índios vinham e retiravam trilhos e dormentes, causando atrasos nas obras, o que levou a ferrovia a eletrificar os trilhos durante a noite, causando dezenas de mortes entre os índios e animais selvagens da região. Devido a essas investidas, seus trabalhadores, também conhecedores das lendas e histórias sobre esses "selvagens", agiam com cuidados redobrados no serviço. Tanto as turmas de exploração, locação e depois as de construção passavam ou permaneciam nesta região com muita cautela. Também os engenheiros, médicos e trabalhadores observavam a mata com cuidado e atenção constantes, esperando, a cada momento, um ataque dos Caripunas e, nas rodas das fogueiras nos acampamentos à noite, os ataques mortais destes aos construtores anteriores da ferrovia eram frequentemente lembrados.
Ironicamente, claro está que os índios, tradicionalmente também muito curiosos e arredios, deveriam estar constantemente espreitando os trabalhos e, deivdo a essa apreensão mútua, durante algum tempo, não houveram possibilidades de aproximação entre os dois grupos até que certo dia uma das turmas da construção encontrou um índio abandonado pela tribo. Os trabalhadores perceberam que ele estava enfermo e com uma grande ferida na perna direita, que não permitia sequer que ele se levantasse. Havia sido deixada ao seu lado uma cabaça com alimentos.
Conhecedores que somos hojes dos costumes indígenas, podemos afirmar com certeza que os demais membros da tribo Caripuna abandonaram aquele índio naquele local para ver o que os "brancos" da construção fariam, pois se o quisessem deixar no mato para morrer não precisariam deixá-lo na trilha que sabiam ser percorrida pelos funcionários da ferrovia. Repetia-se então, muitos anos depois, o que acontecera a Júlio Pinkas, quando encontrara um índio nas mesmas condições.


Ao ser encontrado, o índio estava em péssimo estado de saúde e ainda achava que iria ser morto sem piedade pelos "brancos", o que evidentemente não ocorreu, pois o médico-chefe do hospital de Candelária, Dr. Lovelace resolveu cuidar do índio, até mesmo como estratégia para estabelecimento de boas relações com os índios. Como a ferida estava bastante infectada, havendo comprometido a perna, o Dr. Lovelace resolveu amputar a perna direita do índio, que a essa altura já era conhecido carinhosamente pelos médicos e enfermeiras como "Caripuna Pete". Feita a cirurgia e restabelecido o indio "Pete", o médico mandou vir dos E.E.U.U. um aparelho ortopédico que substituísse a perna amputada. alguns meses depois, quando o índio já estava recuperado, também devido à excelente alimentação (se comarada à disponível na selva..), a Companhia fez com qu eele retornasse à sua tribo.
Imaginem o espanto dos Caripunas ao ter de volta, com uma perna "fria", um membro da tribo julgado morto e enterrado há meses. Previsivelmente, depois de apenas alguns dias de trabalho de "convencimento", ele voltou ao acampamento de trabalhadores, trazendo em sua companhia quatorze índios também doentes de diversas enfermindade, selando dessa forma a amizade entre o pessoal da estrada e os Caripunas.

Embora tenha sido o trabalho anônimo de milhares de Brasileiros e Estrangeiros o responsável pela construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré ---ferrovia que nas palavras do presidente americano Theodore Roosevelt foi, juntamente com o Canal do Panamá, uma das 2 maiores obras realizadas na América---, são inúmeros os personagens que se sobressaem de forma destacada quando se procura compreender melhor a odisséia que foi a construção dessa ferrovia em plena Floresta Amazônica, como o Cel. Church, os irmãos Collins, o engenheiro brasileiro Morsig, o fotógrafo Danna Merril, o mega-empresário Percival Farquhar e outros.


Prof. Valdeci Ribeiro


segunda-feira, 24 de agosto de 2009

NINGUÉM SABE TUDO, MUDE

NINGUÉM SABE TUDO
Sempre que assumimos que sabemos tudo sobre um tema, limitamos nossa capacidade criativa, pois perdemos a curiosidade. Ou seja, jamais se contente com o que você sabe, pois sempre é possível ir além. Complemente esta "humildade" com atitude e coragem para implementar suas idéias. O medo de se expor inibe a criatividade. Para implantar uma idéia criativa é preciso, acima de tudo, de muita determinação.É produtivo também fugir de frases que matam idéias, como "Isso não vai dar certo", "Não vão aprovar...". Sempre que colocamos a mentalidade negativa em nossas ações, já estamos construindo o fracasso. É preferível se munir de coragem, de confiança e, no momento certo, lançar a idéia criativa. Afinal, o "não" você já tem. Por que se contentar com ele?Criatividade, como vimos, tem a ver com saber resolver problemas. Quando você consegue avaliar corretamente uma situação e detém um conhecimento que sustente uma idéia e a promova, ao aplicar a imaginação e sair da zona de conforto, estará sendo criativo. Obrigue sempre seu cérebro a buscar mais informações. Afinal, a melhor solução não é necessariamente a primeira, esta é apenas uma das respostas certas, e que pode estar longe de algo criativo.Podemos concluir que criatividade é uma questão de postura. Como em todo o resto, são nossas escolhas que determinam nosso caminho e nosso resultado. Depende de nós saber se estamos jogando para vencer ou para não perder.Não podemos deixar que situações adversas nos joguem para baixo, assumindo postura de fracasso perante a sociedade. Temos que nos orgulhar da profissão que escolhemos ou por via das dúvidas "exercemos". E para isto precisamos de dignidade e agirmos politicamente correto dentro da ética.Assim, permita extravasar todo o potencial criativo latente dentro de você. Se apaixone pela sua capacidade de mudar, de trazer o novo e o diferente à sua vida. A partir do momento em que se apropriar desta competência, alimentando-a sempre, nada mais fará você parar. Porque terá, finalmente, construído uma grande certeza, daquele tipo que ninguém destrói ou rouba: a confiança de que mudar e ser criativo está em suas mãos; e se algo não estiver como você quer, basta você agir e dar o primeiro passo.

http://www.sociologiaemtela.blogspot.com/

Prof Valdeci

Publicado no Recanto das Letras em 25/07/2009Código do texto: T1718696

sábado, 22 de agosto de 2009

A ESCOLA SOMOS TODOS NÓS



É provável que você, por ser ainda muito jovem não se atente a importância da união para um trabalho em grupo. Muitos acreditam que podem fazer tudo sozinho, outros transferem a responsabilidade para seus pais, patrões ou para o Governo; No entanto trabalhar em grupo é gratificante e nos coloca numa posição privilegiada, quando temos a plena consciência de que fizemos a nossa parte.

Tenho tido um verdadeiro aprendizado de novas posturas, com novas habilidades e novas condutas quem sabe. O projeto "eu amo minha escola", não é do prof. Valdeci, não é de meia dúzia de alunos é sim algo bem maior, de uma dimensão infinda. Na verdade é algo, que começa agora com um processo de humanização do espaço escolar, pois é nele que passamos uma grande parte do nosso dia; E seu alcance será, quando nossos alunos entenderem que lugar de lixo é no lixo, simples não é? mas, temos que fazer a nossa parte!

Não adianta ficarmos criticando e procurando culpados, quando na verdade os verdadeiros cúmplices, anestesiados, mortos, sem atitudes para mudar nossa realidade, sejamos nós mesmos!

Conclamo a todos os alunos do JBC que façamos uma campanha em pról da nossa escola, queremos um ambiente saudavél, limpo. E que em poucos dias possamos transformar nosso cotidiano em algo que chame a atenção da opinião pública, pela limpeza e organização, onde os alunos são ícones de nossa comunidade.

Obrigado a todos os alunos do 1° ano 10, 11, 12 e 22 que estiveram presentes no sábado dia 22/08 para darmos o pontapé inicial na transformação da nossa escola, sem a colaboração de vocês não somos nada.

Portanto, temos um detalhe fundamental: não podemos esperar que as mudanças sejam feitas na sociedade, para depois chegar as mudanças na escola. Façamos o contrário, mudamos a escola porque somos na verdade parte integrante da sociedade organizada, e que nossas atitudes sejam e sirvam de exemplos para muitas crianças e adolescentes!!!!!



* SABADO DIA 22/08 foi realizado na Escola João Bento da Costa, um pequeno multirão de limpeza de nossa praçinha.



Prof. Valdeci

sábado, 15 de agosto de 2009

A ESCOLA: Que Instituição é essa?


Historiadores e sociólogos, estadistas e politicos, de correntes diversas, têm procurado diagnosticar o mal de que sofre a sociedade moderna. Uns, com um laivo de ironia, atribuem as mazelas do corpo politico e social às dores do crescimento. O país em evolução rápida sofre os desajustes próprios do adolescentes, dizem.
Outros salientam o fator econômico, com todas s suas ramificações, como causador do mal-estar generalizado. O remédio, em sua opinião, seria uma melhor distribuição da riqueza. Outros crêem, com exagerado otimismo que com a subida do nível cultural das massas, o homem moderno será capaz de criar uma sociedade ideal.

Mas, que sociedade é essa? Que mudanças são essas que tanto almejamos? De quem é o papel das mudanças? da escola? da familia? da igreja? Ou temos esperança nas mudanças de relação de poder?

Acreditamos na eficácia e urgência de uma campanha de "rearmamento moral", onde o jovem acredite no seu potencial quanto cidadão, na sua importancia como agente e construtor da história.


Não precisamos esperar pelas mudanças vindas lá de cima, nossa sociedade, os legisladores e executores da lei, corromperam-se!! Nossa sociedade é hipocrita!

Nossos jovens precisam acreditar que é através da escola que construimos nossos ideiais, então por que esperar tanto?

Sonhando com possibilidades de um futuro que ainda não chegou, muitos deixam escoar inaproveitado o instante presente, que é o único que nos pertence. Enquanto os visionários vivem num futuro quimérico, os saudosistas perdem-se nas brumas de um passado do qual resta apenas a memória. Somente os que convertem momento presente em obras duradouras, porém, é que terão realmente vivido. Os demais apenas sonharam.

"Juventude significa a predominância da coragem sobre a timidez no caráter, do amor da
sobre o amor da aventura sobre o amor da indolência. Por vezes, existe mais num ho-
mem de cinquenta do que num de vinte.
Ninguém fica velho por ter vivido um certo número de anos. Só se envelhece quando se
abandonam os ideais"

A Escola é sim, um mecanismo de mudança da sociedade. E você o que tem feito para mudar nossa realidade? Vamos nos enganjar no processo de restruturação da nossa escola? Não depende de mim! Não depende de Você!





Depende de NÓS!!!!








prof. Valdeci, leciona Sociologia.





quarta-feira, 12 de agosto de 2009

SAGA DA FAMILIA ROQUE

JOÃO ROQUE DE LIMA “DOCA”

A II Guerra Mundial, a floresta na Amazônia ou a seca no Ceará. De 1943 a 1947 esses três momentos da história se misturaram. Em Barrinha Parajuru, Beberibe-CE, ao leste do litoral cearense, o agricultor, João Roque de Lima, nascido em Cascavel-CE, conhecido como DOCA deixou a lida com a terra, a família, o lugar onde nasceu e virou seringueiro. Como ele, dois irmãos e outros mais 55 mil nordestinos pegaram um navio para o Norte e mudaram, de um dia para o outro, suas vidas. Um exército - número igual ao de americanos mortos no Vietnã -, convocado às pressas pelo governo do Brasil para um esforço de guerra: a produção anual de cem mil toneladas de borracha.Se fosse enredo de filme, poderia ter o título Sem Saída. Se fosse tema de livro, Tragédia Anunciada. Um pacto, os Acordos de Washington, assinado pelos presidentes Franklin Delano Roosevelt, dos Estados Unidos, e Getúlio Vargas, do Brasil, selou o destino do exército da borracha. Eles tinham uma importante missão nacional: salvar os países aliados do colapso na indústria bélica. Para os americanos, um quilo de borracha valia mais que um general e um batalhão juntos. Era o nervo da guerra. O problema mais urgente a ser resolvido. O produto mais crítico a ameaçar o êxito dos Aliados.A comissão especial, formada para estudar o fornecimento e estoques de material de guerra, deu o alarme. Em 1944, cerca de 27 milhões de automóveis na América teriam que ser abandonados pela falta de pneus. Além dos carros, sairia afetada a produção de calçados, isolantes, cinturões, peças para rádio e telefones, por exemplo. O estoque armazenado daria para, no máximo, doze meses. Os planejadores militares entraram em pânico. Mas a indústria de armamento teria prioridade. Melhor o desconforto que a derrota.O relatório final da comissão não deixou dúvidas. Se não fossem assegurados novos suprimentos, as exigências militares esgotariam o estoque - 641 mil toneladas -, antes do verão. O jeito foi partir para o sacrifício. No início, de civis americanos e, logo depois, de milhares de nordestinos brasileiros. Para reduzir o consumo de pneus, os EUA racionaram gasolina, limitaram em 56 quilômetros por hora a velocidade e em oito mil quilômetros o percurso médio anual dos carros e ainda suspenderam a produção e venda de automóveis, até segunda ordem. A produção do aço, do cobre, do alumínio, das ligas ou da gasolina de aviação estava garantida. Havia estoque considerável à disposição das forças armadas. Mas a crise da borracha atingiu a todos os Aliados. A Inglaterra tinha apenas 100 mil toneladas de estoque. O Canadá, 50 mil. A Austrália, 20 mil. A estratégia era buscar toda a matéria-prima existente na América Latina. Pelo menos até que a borracha sintética, um antigo projeto dos EUA, fosse um sucesso e passasse a ser fabricada em escala, permitindo a comercialização. Um total de 50 novas fábricas trabalhava para isso. Quando a guerra terminou, a produção de borracha sintética já alcançava um milhão de toneladas anuais. Mais que o volume de toda a borracha importada em um ano, antes do conflito mundial. Mas isso foi só em 1945. Ainda no auge da crise, um boletim informativo do governo brasileiro trouxe boas novas: a existência de 300 mil árvores da hévea brasiliensis, mais conhecida como seringa, espalhadas por toda a Amazônia. Era, como se diz, a “sopa no mel”. Isso significava um potencial de 800 mil toneladas anuais, numa área de quase um milhão de milhas quadradas, incluindo o Brasil, Peru, Bolívia e Colômbia. A metade dessa produção já resolveria a crise dos aliados.
Os técnicos que fizeram os cálculos esqueceram, no entanto, de computar alguns detalhes importantes. Um deles era a questão da distância. Na Amazônia, em meio acre de floresta, pode-se encontrar, no máximo, três ou quatro seringueiras. Outro ponto não levado em conta era a falta de mão-de-obra para reorganizar os seringais amazônicos, abandonados na década de 30, quando a extração brasileira de borracha caiu para Seis mil toneladas, ou seja, 0,2% da produção mundial. Resultado: eram grandes as chances de as coisas não caminharem tão de acordo com o que foi colocado na ponta do lápis, mas não era assim que eles queriam! Não poderia ter outro nome. A operação que aconteceu no Vale Amazônico em pleno conflito mundial passou a ser chamada de Batalha da Borracha. Os técnicos fizeram, então, novas contas. Em toda a região Amazônica, deveriam restar apenas 35 mil seringueiros, remanescentes do primeiro ciclo da borracha. Era preciso trazer, e urgente, mão-de-obra para a extração de látex suficiente para resolver a carência dos países Aliados. Em troca, o Brasil tinha a promessa de ver resolvido uma lista de pendências: 20 tanques leves, 100 tanques de porte médio, quatro metralhadoras antiaéreas e ainda US$ 200 milhões para equipamentos militares.Com os olhos no Norte do Brasil, os Estados Unidos tinham pressa. Na base do “custe o que custar”, o plano era o de obter o máximo de borracha em um mínimo tempo. Os americanos não se interessavam nem pelo desenvolvimento da Amazônia e nem pelo bem-estar da população, embora alardeassem isso. Enquanto eles arcavam com o ônus maior, envolvendo-se diretamente no conflito, o resto da América devia participar do esforço de guerra, no fornecimento de matérias-primas à indústria bélica e na manutenção da ordem interna, para se evitarem alterações nos compromissos políticos e econômicos assumidos. Franklin Roosevelt queria mais que a produção de borracha do Brasil. Getúlio Vargas cedeu. Aumentou o número de tropas de manutenção nas bases aéreas do Norte e Nordeste, liberou a construção de instalações militares e navais e a permissão para que as aeronaves americanas usassem o espaço aéreo nacional. Em alguns casos, oficiais brasileiros chegaram a entregar o comando das tropas para oficiais americanos. Mas tudo isso ainda não foi suficiente. A vida do agricultor João Roque de Lima (DOCA), por exemplo, também entrou na negociação. Ele e outros milhares de nordestinos, na grande maiorias adolescentes, foram colocados na mesa como trunfos do Brasil nessa política de boa vizinhança. Na barganha do toma-lá-dá-cá, a mão-de-obra, tratada pelos jornais como tropa de flagelados, era algo importante a se oferecer no sacrifício da guerra. Só no ano de 1945, esse exército recrutado aumentou o estoque de borracha natural de 93.650 para 118.715 toneladas. Uma reportagem publicada no New Chronicle, de Londres, denunciou a tragédia: 31 mil migrantes nordestinos morreram na tentativa de garantir matéria-prima para os Estados Unidos. Dos 55 mil homens que mandou para a Amazônia, poucos conseguiram voltar para casa.O segundo ciclo da Borracha não deixou nada para o Brasil. Os seringais, a maioria falidos ou hipotecados, seriam, anos mais tarde, presa fácil de especuladores de terra que começaram a atuar na região. Manaus, o centro do esforço de guerra, estava arruinada e não era, nem de longe, uma sombra do luxo e deslumbramento do começo do século. Já os trabalhadores foram entregues à própria sorte.

Eles fizeram esta história
– JOÃO ROQUE DE LIMA, * l4/04/1922 + 10/07/2005
Seu Doca nasceu em Cascavel-CE e juntamente com dois irmão veio para os seringais do norte, precisamente na região do Acre, como soldado da borracha, em meados de 1943, posteriormente veio toda sua família, onde muitos se instalaram na região de Porto Velho e Guajará-Mirim. Seu pai Joaquim Roque de Lima e dona Maria Elisa tiveram ao todo 21 filhos, dos quais ainda vivem 08 até a data desta pesquisa.
Uma calça de mescla azul, uma blusa de morim branca, um chapéu de palha, um par de alparcatas de rabicho, uma caneca de flandre, um prato fundo, um talher, uma rede e uma carteira de cigarros Colomy. No lugar da mala, um saco de estopa. O enxoval do soldado da borracha era o presente do presidente Getúlio Vargas aos voluntários do Inferno Verde, como ficou conhecida a Amazônia posteriormente. Melhor que isso, só a promessa de dinheiro fácil estampada em cartazes de propaganda do Governo Federal. Difícil resistir. Principalmente para quem vive no Sertão em um ano de muita miséria. Na seca de 1942, cerca de 55 mil nordestinos se alistaram para a Batalha da Borracha.Além de aliciadores profissionais, a mando dos patrões - donos de seringais no Amazonas -, o trabalho de convencimento era feito por padres, médicos, advogados. A promessa era de que os voluntários voltariam como heróis da Pátria, sob total apoio do Governo Federal, e ficariam ricos na extração da borracha. O que não foi dito, milhares de nordestinos tiveram que descobrir depois, quando já era tarde demais para voltar. De livres, passaram a escravos. No coração da selva, isolamento e solidão. Eles trabalhariam para pagar uma dívida econômica e moral com o patrão. De lá, não se podia escapar.
Como soldado da borracha ele conseguiu uma aposentadoria de dois salários mínimos, pensão esta que recebeu até os últimos dias de sua vida. Chegou em Rondônia em 1955, onde também trabalhou como seringueiro, carvoeiro, Oleiro, Carroceiro e Pedreiro; Constituiu uma família casando-se com a Sra. Terezinha Soares de lima, com a qual teve 08 (oito) filhos: Sebastião(LIMA), Osmarina, Osmar, Oswaldo, Osmilda, Osmildo, Osvaldina e Oscarina.
Segundo lembra seu filho Sebastião, “muitas vezes para o sustento da família Doca caçava tatu, paca e outros animais silvestres, no local onde nos dias atuais localizam-se os bairros Embratel e Nova Porto Velho”.

Dona Maria dos Anjos, irmã de seu Doca, 83 anos, veio para Rondônia, alguns anos depois onde ficou hospedada na casa de Doca, segundo a mesma, João Roque, vivia muito bem onde tinha uma pequena olaria (fábrica de tijolos), onde empregou alguns irmãos seus que vieram do Ceará tentar a sorte por aqui. Ao tentar lembrar o nome de seus 20 irmãos, confunde-se, fato que foi explicado por outro irmão mais tarde, os nomes dados às crianças nascidas no Ceará eram dados pelo padre da paróquia, assim três irmãos tiveram o nome de Antonio Roque de Lima, o que diferenciava um do outro era o próprio apelido dado pelo pároco e teve uma menina que foi batizada com o nome de Antonia Roque de Lima. Sobre o Doca, lembra que o mesmo foi um homem muito trabalhador, que de tudo fez nessa vida.
Dona Maria dos Anjos é agricultora na localidade de Santo Antonio em Porto Velho, mas precisamente na área onde está sendo construída a nova hidrelétrica brasileira. e que seu pai Joaquim Roque de Lima, foi enterrado nesta área da hidrelétrica de Santo Antonio.
Lembrou também que Doca trabalhou vendendo madeira para as locomotivas que iam de Porto Velho à Guajará-Mirim, e que em meados do ano de 1974 foi para Humaitá-AM , para construir telhas de barro que serviram na construção do Quartel Militar 54 BIS. e Já no ano de 1978 o mesmo dedicou-se ao plantio de capim na estrada que liga a cidade de Humaitá e Manaus, num povoado conhecido como “Toca da Onça”.

ANTONIO DOS SANTOS LIMA, 79 anos, nascido no dia 13/10/1929 em Barrinha Parajuru-CE, foi um dos irmãos que vieram com seu DOCA para as áreas da extração da seringa na década de 40. Abdom , como é conhecido confirmou a história da escolha do nome das crianças pelo padre da cidade do interior do Ceará, e confirma que tem outros dois irmãos com nome de Antonio e uma irmã chamada Antonia.
“é um prazer ter a nova praça da cidade com o nome do meu irmão, vai ficar na história, uma saga de muita luta e esforço, vivida no anonimato” Abdom

O mesmo emociona-se ao relembrar com saudades do irmão DOCA, que vê na luta do filho Sebastião Oscar de Lima(LIMA), uma batalha gloriosa e muita dedicação em homenagear seu pai dando-lhe seu nome a nova praça que será inaugurada em 2009 no Bairro Caladinho em Porto Velho.


PIONERISMO NO BAIRRO CALADINHO

Em 1985, quando surgiu o Bairro Caladinho, na Zona Sul da Cidade Porto Velho, o Sr. João Roque de Lima (DOCA), foi um dos pioneiros nesta localidade, quando o acesso era quase impossível. Segundo Menezes (um dos Antônio’s) seu irmão foi um dos desbravadores deste aglomerados de pessoas que do dia para a noite, formaram um dos maiores bairros da nossa cidade.
Desempenhou várias atividades junto à comunidade participando de muitas reuniões para cobrar das autoridades competentes melhorias para o caladinho, tais como: abertura de ruas, encascalhamento, iluminação, construção de pequenas pontes, escolas, postos de saúde, e uma melhor segurança para o bairro.
E a história é sempre assim, quantos heróis anônimos, quantas histórias, contos, causos, mitos e lendas que nos fazem refletir, que somos agentes da nossa própria história.
Seu Doca, faleceu no dia 10 de Julho de 2005, * era domingo, e nosso bairro perdeu um de seus integrantes ilustres, sim, porque Doca, sempre foi uma pessoa humilde que escolheu nossa terra para viver, formar família, criar seus filhos e nos deixar uma grande lição: “honestidade acima de tudo”.
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HISTÓRIA VIVA


Nas andanças em busca de resgatar a memória de “DOCA”, encontramos o Sr. JOÃO BARBOSA DE CARVALHO, filho de um dos maiores Seringalistas do Estado do Acre no “boom” da borracha, seu pai chamava-se Lúcio Telles de Carvalho, que foi patrão de João Roque (Doca) em um de seus seringais.
Seu João, ou melhor, Dr. João Carvalho, hoje com 89 anos de idade é aposentado e é o Dentista mais velho do município de Porto Velho, o mesmo lembra que fazia o atendimento aos 26 acampamentos ao longo da Ferrovia Madeira-Mamoré, uma vez por mês, lembra ainda que o transporte era feito num transporte chamado “Litorinas”. Emociona-se.
Ainda, no vigor de seus 89 anos, escreveu a punho as recordações que teve de seu Doca, que segundo o mesmo, foi um exemplo de pessoa, e que o seringal(localidade) no Estado do Acre chamava-se Poromgaba.
Dr. João Carvalho, ficou entusiasmado com a possibilidade de se homenagear a figura de uma pessoa humilde, que tem uma folha imensa de serviços prestados à comunidade e ao próximo.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este relato histórico sobre o Sr. João Roque de Lima, popularmente conhecido e “batizado” pelo pároco de sua cidade natal como “DOCA”, tem o objetivo de registrar uma página importante de fragmentos do cotidiano da nossa figura ilustre, para nossos amigos e familiares da Família Roque.
Procuramos reviver alguns momentos da vida deste “herói” anônimo, que viveu momentos de tensão, de conflitos e acima de tudo muito companheirismo e semeou o amor por onde passou.
Servirá para que no futuro nossos amigos e parentes da Família Roque, saiba que lutamos pelo ideal de fazer uma justa homenagem ao nosso querido irmão que nos deixou com muitas saudades.
Que os fatos narrados aqui, foram de pequenas conversas com amigos e familiares, não se constituindo assim uma pesquisa científica.






“A pior derrota é aquela de quem não se arriscou”

domingo, 9 de agosto de 2009

O SISTEMA DE AVIAMENTO E O SOLDADO DA BORRACHA



São vários os relatos historiográficos que caracterizam por meio de diversos enfoques a Amazônia no período correspondente ao da Segunda Guerra Mundial, mais precisamente entre os anos de 1942 a 1945. Grande parte dessas produções historiográficas, mesmo que apresentem estudos bem específicos sobre qualquer que seja a temática atrelada a este recorte cronológico, na maioria das vezes está direta, ou indiretamente ligada à economia gomífera. Certamente, que poucas foram as vezes em as atenções do Brasil voltaram-se com “bons olhos” para a região amazônica. Diante dessa realidade, percebemos a importância que esse acontecimento representou para a nossa sociedade no campo econômico, político, social e cultural como:



A corrida para a floresta, na colheita do látex, assegurou um novo condicionamento de vida na região. Atraíram nordestinos que se puseram a prova, mais uma vez com o ânimo viril e capacidade de trabalho. Impôs a formação de imensas frotas fluviais para o vai-e-vem dos negócios, [...], estabeleceu o contato da região com as grandes capitais do imperialismo industrial, na Europa e no norte da América. Permitiu a execução de políticas educacional levada às populações infantis da interlândia, estabeleceu com a presença de uma população dinâmica, as marcas que garantiram, na ausência de forças militares organizadas, a integridade e a soberania nacional.


Assim, o recorte e o período em evidência apresentando o seringal como a representação fiel do desenvolvimento político e econômico do Estado do Amazonas. Ou seja, a partir do estabelecimento dos seringais a região amazônica passou a ser inserida no contexto nacional, como um grande potencial econômico e político. Evidentemente não podemos negar de forma alguma as contribuições que o processo econômico da economia da borracha representou para Amazônia. Porém, o Historiador não pode, nem tão pouco deve voltar o olhar para o estudo desse acontecimento buscando compreendê-lo apenas como um episódio favorável ao desenvolvimento político e econômico da região, pois tal evento, também foi o mesmo que fomentou a exploração do homem por meio do trabalho “forçado”. Além do isolamento da selva favorecer esse tipo de conduta imposta por muitos seringalistas, não havia fiscalização por parte dos órgãos responsáveis pelo cumprimento dos direitos desses trabalhadores previstos no contrato estabelecido pelo SEMTA e pelo CAETA.


Quanto a questão contratual desses trabalhadores (recrutados no nordeste brasileiro pelos órgãos apontados pelo Governo Federal), vários foram os fatores que levaram a denúncias sobre os abusos cometidos com essas pessoas durante a primeira fase de exploração da borracha na Amazônia – no período correspondente aos anos de 1898 a 1912. Isso fez com que não fosse permitido encaminhar os trabalhadores em idênticas condições às da ocasião anterior para seringais da Amazônia.Assim, em busca de minimizar os efeitos sociais desastrosos, foi elaborado um contrato que trazia anexas as cláusulas gerais do contrato padrão de trabalho nos seringais, pelo próprio SEMTA. Conforme o estabelecido na primeira parte do contrato, os órgãos do Estado encarregados de encaminhar trabalhadores para a Amazônia se comprometiam a oferecer:(...) assistência médica aos trabalhadores, concentrá-los, transportá-los, vesti-los e alimentá-los até a sua colocação nos seringais. No item “assistência às famílias”, havia algumas diferenças entre os contratos do S.E.M.T.A. e os da C.A.E.T.A.


Pelo primeiro, às famílias assistidas seriam creditados Cr$ 2,00 por dia por dependente, não superando o montante de Cr$ 8,00, qualquer que fosse o número de dependentes (cláusula quarta). À família do trabalhador que optasse pela assistência do S.E.M.T.A., mediante desconto dos vencimentos ou de quaisquer outros proventos obtidos pelo contratado, seria assegurada a continuação da assistência prevista durante toda a vigência do contrato do trabalhador no seringal.
À primeira vista tudo indicava que seria diferente e que os trabalhadores teriam garantidos seus direitos mesmo trabalhando em um seringal no interior da selva amazônica. Os órgãos responsáveis pelo contrato, no intuito de apresentar segurança e transparência à esses trabalhadores, criaram uma caderneta para que o empregador (no caso o seringalista) fizesse as anotações do valor correspondente a assistência familiar (semelhante a um seguro) pago mensalmente pelo patrão, na forma da lei e dos regulamentos vigentes.A quebra do contrato, e conseqüentemente a desobrigação do pagamento da assistência, somente cessaria em caso de rescisão de contrato, ou quando a família do trabalhador viesse a se unir a este no local de trabalho. Após a colocação do trabalhador no seringal, a assistência à família continuaria a ser prestada, sendo as importâncias correspondentes debitadas na caderneta do respectivo trabalhador, por ocasião da liquidação da safra e por intermédio do Banco da Borracha S. A. De acordo com o French, na segunda parte do contrato, o seringalista se obrigava a: Entregar ao seringueiro as estradas arrendadas em condições que permitissem a sua exploração imediata; fornecer adiantamento em gêneros alimentícios, peças de roupa e medicamentos de uso comum, utensílios e ferramentas, necessários ao serviço e à extração de látex, inclusive arma e munição de caça. Esses fornecimentos, supostamente, não poderiam visar lucro e deveriam ser lançados na caderneta do seringueiro.
Assim, estavam estipuladas as regras de contratos vigentes naquele período, que deveria beneficiar os trabalhadores remanejados do nordeste para os seringais da Amazônia. Porém, nada disso conseguiu sair do papel, tornando-se somente uma manobra que utilizava a garantia de um contrato ilusório – nas manobras utilizadas pela SEMTA e a CAETA – em busca de tornar eficientes as estratégias de mobilização e recrutamento de trabalhadores para a Amazônia.No interior do seringal esses imigrantes trabalhadores, além de sofrerem explorações, lhes eram cerceado todo o tipo de manifestação, ou pior, a sua liberdade de expressão, já que não havia condições nem espaço para demonstração de insatisfação. Qualquer soldado da borracha que deixasse transparecer qualquer desprazer, ou até mesmo buscasse desistir do trabalho, era reprimido e muitas das vezes sofreria duras punições por parte dos patrões seringalistas. Notamos então, que a historiografia passou a perceber um novo tipo de escravidão se configurando em pleno século XX na Amazônia.

No sistema de aviamento não havia possibilidade dos seringueiros acumularem capital algum, pois o uso de dinheiro era raro, uma vez que as mercadorias eram permutadas com os donos dos barracões. Para piorar, os extrativistas eram forçados a dedicar-se quase que exclusivamente à coleta do látex, pois aos donos dos seringais não interessava a abertura de áreas de pasto e de lavouras, já que isso poderia implicar na diminuição do número de seringueiras a serem exploradas, e ainda incorrer no desvio da mão de obra do extrativismo para a agropecuária. Mais importante ainda, caso os seringueiros fossem bem sucedidos na agropecuária, sua dependência para com os patrões seria fortemente reduzida.As chances de que se organizasse qualquer tipo de ação coletiva a fim de confrontar esta situação eram mínimas, pois além do evidente desequilíbrio de forças ente patrões e seringueiros, estes viviam isolados uns dos outros, sem muitas oportunidades de interação. Eles também vinham de uma região onde as relações sociais eram extremamente verticalizadas e autoritárias e não tinham tradição de organização social.


Além disso, nos primeiros anos deste segundo momento da exploração do látex, o sistema de aviamento estava respaldado por um governo “nada democrático” que considerava a produção de borracha como parte de um esforço de guerra do Estado Brasileiro O Soldado da Borracha na ocasião do seu deslocamento do Nordeste para a Amazônia, além de pagar as despesas da viagem, o este homem encontrava pela frente um mecanismo estrutural que o fazia ficar preso definitivamente ao seringal pela extração do látex. “O seringueiro era uma espécie de assalariado de um sistema absurdo. Era aparentemente livre, mas a estrutura concentracionária do seringal o levava a se tornar um escravo econômico do patrão”. Dessa forma, segundo o autor, o trabalhador, que já chegava com um saldo negativo, era tragado pelo endividamento para com o seringalista, e assim, o extrator começou então a burlar a estratégia montada pelas casas aviadoras. Neste sentido, começava a aparecer a figura do regatão, um verdadeiro transgressor da estrutura montada pelo capital internacional monopolista, sobrepondo suas táticas à estratégia capitalista, utilizando uma métis, ou seja, sabedoria calculada e, por que não dizer, uma linha de fuga que escapava à visibilidade do poder, nas paragens amazônicas, pelos seringais . Essa dívida crescia rapidamente, porque tudo o que se recebia no seringal era era anotado na sua conta corrente e cobrado: mantimentos, ferramentas, tigelas, roupas, armas, munição, remédios etc. Só no fim da safra, a produção de borracha de cada seringueiro era abatida do valor de sua dívida, mas o valor de sua produção era, quase sempre, inferior à quantia devida ao patrão. E não adiantava argumentar que o valor cobrado pelas mercadorias no barracão do seringalista era cinco, ou mais vezes maior do que aquele praticado nas cidades (os seringueiros eram proibidos de vender ou comprar em qualquer outro lugar). Os soldados da borracha descobriam que no seringal a palavra do patrão era lei . Assim, a Historiografia sobre a história da Amazônia seguiu seu curso por meio de vários enfoques sobre o período correspondente ao da economia da borracha, no contexto da Segunda Guerra Mundial: hora como um paraíso perfeito, hora como o Eldorado e hora como um verdadeiro inferno verde.



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1- REIS, Arthur Cezar Ferreira. Seringal e o Seringueiro – 2º Edição. Manaus: Editora da Universidade do Amazonas, 1997. p. 77. 2- MARTINELLO, Pedro Antonio. A batalha da Borracha na Segunda guerra Mundial e Suas Conseqüências Para o Vale Amazônico. Rio Branco: Editora UFAC, 1988. p. 79. 3- Idem. p. 24

Prof. Valdeci

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

PROTESTO NA JATUARANA



Mais uma manifestação de populares pedindo trabalho na Semtran – Secretaria Municipal de Transito foi realizada na manhã desta quarta-feira (5) em Porto Velho. Parece que o movimento de reivindicação feita pelos alunos da Escola João Bento da Costa, não surtiu o efeito desejado com o descaso das autoridades de nosso municipio quanto a sinalização da Av. Jatuarana nas proximidades da escola.

Os moradores dos conjuntos habitacionais Rio Verde e Rio Bonito, utilizando-se de pneus em chamas interditaram a avenida Jatuarana por cerca de 40 minutos, enquanto mostravam uma faixa de protesto, pedindo redutor de velocidade em frente ao residencial que abriga mais de 3000 pessoas.
Os moradores afirmaram também que já se cansaram de informar a Semtran sobre o fato ( desde 2007), porém, como é de “práxis” na gestão de Roberto Sobrinho, não houve resposta para a comunidade. Segundo Mirla Soares, o Ministério Público de Rondônia também foi notificado do caso da comunidade e também se omitiu. Um novo protesto vai ser realizado em breve, com interdição sem prazo definido para desobstrução.

Alunos da escola JBC, também estão organizando-se para a interdição da principal via da Zona Sul de Porto Velho, se as "autoridades" não se empenharem para a solução deste problema parece que nossa cidade se tornará um caos nos próximos dias. Na verdade a população está cansada de ver tantos acidentes com danos materiais e físicos.


Prof. Valdeci Ribeiro

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

"O MARECHAL DA FLORESTA"



Rondon, descrito pelo cientista Edgar Roquette-Pinto como “o ideal feito homem”, construiu mais de seis mil quilômetros de linhas telegráficas. Outra importante missão desse militar e engenheiro estava concluída: ele colocava o gigante estado do Mato Grosso no mapa, ligando-o também a Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo e região sul, permitindo sua expansão econômica, e mostrava à então pouco amistosa Argentina que o Brasil estava pronto para repelir qualquer tentativa de crescimento, em nossa direção, de sua província de Misiones.


As linhas telegráficas, que os índios bororo e pareci chamavam de “língua de Mariano”, seriam utilizadas por décadas, apesar de, ainda no início do século XX, o cientista italiano Guglielmo Marconi registrar a primeira patente do telégrafo sem fio e fazê-lo funcionar com êxito comercial. Mas Cândido Rondon iria surpreender o mundo com muito mais: ele aplicou em nome do Exército Brasileiro, e da própria nação, uma política humanitária no trato com os índios.

A política de hoje, de todos os países do mundo para suas minorias populacionais, continua baseada naquela que Rondon e seus colaboradores formularam em 1910, no Serviço de Proteção aos Índios (SPI). E a chancela dessa política planetária é da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Descendente de índios bororo, guaná e terena, Cândido Mariano da Silva Rondon nasceu no Mato Grosso, em 5 de maio de 1865.
Órfão de pai e mãe ainda criança pequena, foi criado por um tio que o enviou ao Rio de Janeiro para os estudos militares e “ser alguém na vida.” Em 1889, aos 24 anos de idade, Rondon foi nomeado ajudante do então major Antonio Ernesto Gomes Carneiro na Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas, no Mato Grosso. É com esse oficial (“o único chefe que eu tive”) que ele se definiu como uma das mais generosas figuras da Humanidade. O militar narrou para a escritora Ester de Viveiros, sua biógrafa no livro “Rondon conta sua vida”: “Gomes Carneiro se revelou o grande conhecedor do problema indígena, o nobre defensor dos donos das terras que atravessávamos, nossos irmãos das selvas. Proibiu, terminantemente, em cartazes que mandou afixar ao longo da linha telegráfica, que neles se atirasse, ainda que fosse para os assustar: “Quem dora em diante, tentar matar ou afugentar os índios de suas legítimas terras, terá de responder, por esse ato, perante a chefia da Comissão”. Rondon anotaria, mais tarde, em seu diário da selva que entre os anos de 1892 e 93, “fui, desde logo, estabelecendo o lema que nortearia todo o meu trabalho no sertão, em relação a nossos irmãos, os índios: “morrer, se necessário for; matar, nunca.”
Como todo gênio humanista, Rondon era um homem simples, de bom trato, amigo das pessoas, sem qualquer distinção. Na hora da comida, em meio à selva densa, era o último a fazer a refeição: “(...) o chefe fica com as sobras. (...) A comida é, antes de tudo, para o soldado.
(...) Minha maior preocupação era manter alto o ânimo da turma.” Em seu fervor militar e positivista, fazia atos solenes em datas históricas. No dia 7 de setembro mandava hastear a bandeira, tocava o hino nacional num gramofone e soltava fogos de artifício. Os índios se aproximavam, ariscos e curiosos e logo entravam na festa.

Fez, em 1913/14, uma difícil e histórica expedição científica à Amazônia, com o ex-presidente Theodore Roosevelt, dos Estados Unidos. Eles cumpriram um percurso de três mil quilômetros, descobriram e percorreram um rio de 712 quilômetros, o rio da Dúvida, formado pelos rios Castanha e Ariapuanã. Em homenagem ao estadista americano, Rondon batizou o rio com o nome de Roosevelt. A expedição levou, para o Museu de História Natural, de Nova York, uma coleção de 2.500 aves, 500 mamíferos, répteis, batráquios, peixes e insetos, muitos desconhecidos pela ciência.
O primeiro princípio de Rondon, “morrer, se preciso for, matar nunca”, foi formulado no começo deste século quando, devassando os sertões impenetrados de Mato Grosso ia de encontro às tribos mais aguerridas, com palavras e gestos de paz, negando-se a revidar seus ataques, por entender que ele e sua tropa eram os invasores e, como tal, se fariam criminosos se de sua ação resultasse a morte de um índio.”
*Valdeci Ribeiro, especialista em Historia Regional e Rondônia

sábado, 1 de agosto de 2009

AFRODISÍACO



“…o único afrodisíaco verdadeiramente infalível é o amor. Nada consegue deter a paixão acesa de duas pessoas apaixonadas. Neste caso não importam os achaques da existência, o furor dos anos, o envelhecimento físico ou a mesquinhez das oportunidades; os amantes dão um jeito de se amarem porque, por definição, esse é o seu destino.” (Isabel Allende)


“Afrodite: Contos, Receitas e Outros Afrodisíacos”
Isabel Allende
Bertrand Brasil